A dor pélvica não deve ser um silêncio compartilhado: um olhar clínico e humano sobre a endometriose

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Quantas vezes uma queixa de dor incapacitante durante o ciclo menstrual foi minimizada como “parte de ser mulher”? Essa normalização do sofrimento é o primeiro obstáculo que enfrentamos no consultório ao lidar com a endometriose. Do ponto de vista clínico, não estamos falando apenas de uma cólica severa, mas de uma doença inflamatória sistêmica, estrogênio-dependente, em que o tecido semelhante ao endométrio se implanta fora da cavidade uterina. O desafio reside na complexidade dessa migração celular, que pode atingir desde os ligamentos uterossacros até o septo retovaginal, bexiga e, em casos mais raros, o diafragma. A fisiopatologia da endometriose envolve um microambiente inflamatório crônico. Quando essas células ectópicas se instalam, elas não apenas sangram durante a menstruação; elas desencadeiam uma cascata de citocinas pró-inflamatórias que levam à formação de fibroses e aderências. É essa arquitetura distorcida da pelve que gera a tríade clássica: dismenorreia (dor menstrual), dispareunia de profundidade (dor no ato sexual) e infertilidade. O diagnóstico: além do exame físico Para chegarmos a um diagnóstico preciso, a propedêutica avançou significativamente. O exame físico bimanual ainda é o ponto de partida, permitindo identificar nodularidades ou fixação uterina, mas a soberania diagnóstica hoje pertence aos exames de imagem especializados. Não basta uma ultrassonografia transvaginal convencional. O padrão-ouro para o mapeamento da endometriose profunda é a ultrassonografia com preparo intestinal ou a ressonância magnética da pelve com protocolos específicos. Imagine uma paciente de 28 anos, com queixas de tenesmo (vontade constante de evacuar) e dor pélvica cíclica que não cede a analgésicos comuns. No mapeamento, identificamos um nódulo infiltrativo no reto sigmoide. Aqui, a ginecologia se funde à necessidade de uma visão multidisciplinar. O tratamento não pode ser uma “receita de bolo”. Precisamos avaliar se o objetivo é o controle da dor, o desejo de gestação ou a preservação da função de órgãos adjacentes. As opções terapêuticas variam conforme a gravidade e o fenótipo da doença: Bloqueio Hormonal: O uso de progestogênios isolados, sistemas intrauterinos (DIU de levonorgestrel) ou análogos do GnRH visa a atrofia das lesões e a amenorreia, reduzindo o estímulo inflamatório. Abordagem Cirúrgica: A laparoscopia ou a cirurgia robótica são indicadas quando há falha no tratamento clínico ou comprometimento de órgãos como ureteres e intestino. O foco deve ser sempre a excisão completa dos focos (stripping) e não apenas a cauterização superficial, que apresenta altas taxas de recidiva. Suporte Multidisciplinar: Fisioterapia pélvica para manejo da hipertonia do assoalho pélvico e suporte nutricional para redução da carga inflamatória dietética. A endometriose é uma doença que exige paciência diagnóstica. A média mundial de atraso no diagnóstico ainda gira em torno de sete a dez anos, um tempo precioso em que a reserva ovariana pode ser comprometida e a dor pode se tornar centralizada — quando o sistema nervoso “aprende” a sentir dor mesmo na ausência do estímulo inflamatório agudo. Por isso, a escuta ativa no consultório é uma ferramenta técnica tão vital quanto o bisturi. A integração entre a ginecologia e a mastologia também se faz presente na análise do histórico hormonal dessa mulher. Muitas vezes, o manejo da endometriose envolve terapias hormonais prolongadas que exigem um acompanhamento rigoroso da saúde das mamas, garantindo que o equilíbrio entre o controle da doença pélvica e a segurança mamária seja mantido.

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